Por que os templos da CCB são todos parecidos
A padronização é deliberada. E há uma fachada em São Paulo que ainda escreve "Christã" - com a ortografia anterior a 1931.
Se você já viu uma casa de oração da Congregação Cristã em Curitiba e outra em Feira de Santana, provavelmente achou que era a mesma construção. Não é impressão.
A padronização arquitetônica e de cor é deliberada, para que os membros reconheçam um templo da CCB à primeira vista, em qualquer cidade do país. É a mesma lógica de uma marca - só que aplicada a mais de vinte mil edifícios, sem departamento de marketing, sem manual público, sem que a igreja jamais tenha anunciado isso como estratégia.
O efeito prático: fotos de casas de oração de estados diferentes são quase indistinguíveis. E um fiel que se muda de cidade encontra o templo antes de perguntar o endereço.
O templo da Rua Anhaia, e a fachada que diz “Christã”
No Bom Retiro, centro de São Paulo, entre prédios comerciais e residenciais, está o templo da Rua Anhaia - descrito como a primeira casa de oração em alvenaria da denominação, e a mais antiga dela. Ficou 34 meses fechado para reforma e foi reaberto em março de 2016, em solenidade presidida pelo ancião Gerbes Oliva, da sede do Brás.
Quando fotos da fachada circularam nas redes, houve confusão entre os próprios membros: a palavra estava escrita “Christã” - com a grafia anterior à reforma ortográfica de 1931. A explicação dada na época foi que, pelo valor histórico do imóvel, a igreja optou por manter a grafia original da época do registro.
Sobre o “tombamento”. A reportagem da época diz que o prédio é “tombado pelo Patrimônio Histórico”, sem nomear o órgão. Procuramos: a lista de bens tombados pelo Conpresp, conselho municipal de preservação de São Paulo, não registra nenhum templo da CCB - nem na Rua Anhaia, nem na Penha. Trate “tombado” como alegação de imprensa não confirmada. O que está documentado é que a igreja preservou a grafia por decisão própria.
Há, ainda assim, um dado datável embutido na ortografia. As regras de 1931 só foram ratificadas em 1938 e entraram em vigor em 1941. Uma fachada com grafia antiga sugere construção anterior aos anos 1940 - o que é, ironicamente, uma das poucas formas de datar um templo da CCB por evidência direta. Ver Não existe um acervo histórico por templo.
O maior deles
O templo da sede administrativa, na Rua Visconde de Parnaíba, 1616, no Brás, tem 19.028 m² - o quarto maior de São Paulo, segundo levantamento da Folha de S.Paulo no qual a Catedral da Sé aparece apenas em 21º lugar.
O prédio atual vem de um projeto escolhido no fim da década de 1940 - o “Projeto Igor Sresnewsky”, selecionado entre três opções - e construído em concreto armado a partir de 1948. Em 7 de maio de 1954 realizou-se ali o primeiro batismo na nova casa de oração, com o ancião Miguel Spina batizando, episódio registrado pelo Jornal da Tarde.
A igreja também constrói fora dos cultos
O acervo livre do Wikimedia Commons inclui imagens da assistência prestada pela CCB durante as enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024. O site oficial mantém chamadas de “Coleta Obra da Piedade - Calamidades”, em nível nacional.
Um acervo de 86 fotos para 21.863 templos
É todo o registro fotográfico livre que existe da CCB no Wikimedia Commons - 86 imagens, quase todas de exteriores contemporâneos. Entre elas há dois documentos primários raros: uma “Deliberação CCB sobre nova casa de oração” e a fotografia restaurada do batismo de 1954.
Oitenta e seis imagens, para vinte e um mil e oitocentos e sessenta e três templos. É a medida exata do quanto essa arquitetura - padronizada, onipresente, reconhecível de longe - permanece não documentada.
Fontes. A padronização arquitetônica e o dado dos 19.028 m² vêm da Wikipédia (pt), que cita a Folha de S.Paulo - confiança média. A história do templo da Rua Anhaia vem de reportagem do Blasting News de março de 2016, hoje acessível só por snapshot no Wayback Machine
- confiança baixa, e a alegação de tombamento foi verificada e não se confirmou. Imagens: Wikimedia Commons, licença indicada em cada legenda.